Buscar

Sonhos e desafios para a "Economia de Francisco" - Entrevista com Lara Martins


Uma nova economia é não apenas possível, como necessária. Discute-se nas universidades, empresas e organizações internacionais. Dessa vez, o tema será debatido também na Igreja Católica ou, para ser mais precisa, a convite do Papa Francisco. Dois mil jovens de diversas partes do mundo reunidos para, em três dias de evento, buscar alternativas e construir novos caminhos em direção a uma economia mais justa, inclusiva e sustentável: essa é a proposta da “Economia de Francisco”.

Lara Martins, ex-aluna do Gera Social e facilitadora em nossos cursos, mulher negra protagonista na construção de um futuro sustentável para todas e todos, foi uma das jovens lideranças selecionadas para participar do evento - que ela chama intimamente de “Hackathon do Papa”, em referência ao modelo de evento em que profissionais de diferentes áreas se reúnem por muitas horas (e algumas vezes dias) para trabalhar juntos e gerar inovação. Conversamos com ela sobre o evento, expectativas e ainda sobre a baixa diversidade entre os participantes.


O evento “Economia de Francisco” estava programado para ser presencial, em Assis, na Itália, entre os dias 26 e 28 de março de 2020. Com a pandemia da Covid-19, teve que ser adiado e será realizado online e ao vivo nos dias 19, 20 e 21 de novembro. Para Lara, a data é simbólica, já que no dia 20 de novembro, em alguns estados do Brasil, celebra-se o Dia da Consciência Negra. O grupo que representará o Brasil na busca por alternativas de futuro é, no entanto, majoritariamente branco.


Mesmo com essa importante provocação, a articuladora local e global e ativista de ações em prol do Desenvolvimento Sustentável, enxerga muito potencial no evento que contará com participantes de 120 países, divididos em 12 vilas temáticas e mais de 60 grupos (hubs) de criação e debate de ideias inovadoras. Cada participante escolheu a vila (uma espécie de grande “grupo temático”) que gostaria integrar de acordo com interesses e experiências. A vila “Gestão e Dom”, escolhida por Lara, trabalhará negócios sustentáveis e de impacto social.


Além disso, também estarão presentes grandes nomes como Amartya Sen e Muhammad Yunus, ambos ganhadores de prêmios Nobel, que junto com o próprio Papa Francisco participarão de todo o evento, com palestras, trocando conhecimento e servindo de inspiração para todos os participantes.


Leia abaixo a entrevista completa.



O Brasil é um país enorme e com muitas diferenças sociais, econômicas e culturais entre suas regiões. Levando isso em conta, qual a sua percepção em relação ao grupo selecionado para representar nosso país?


- O grupo do Brasil é a segunda maior delegação, a maior é a italiana. Então, o Brasil é a maior delegação estrangeira. Se formos falar do público do evento como um todo, ele é branco. Branco e masculino, com a faixa etária média de 30 anos. Recentemente, eu perguntei na plataforma online que temos para conexão de todos os selecionados mundo afora, onde estavam os selecionados negros e, por enquanto, eu tive apenas duas respostas. Aqui no Brasil, se eu não me engano, a maioria dos jovens selecionados é de São Paulo, e muitos são ligados à Igreja Católica, por mais que o evento não seja um evento católico. Tem um grupo chamado “Enegrecendo a Economia de Francisco” aqui no Brasil, que tem o propósito de discutir a questão racial dentro da Economia de Francisco e as questões relacionadas à questão racial no país, mas mesmo este grupo possui pouquíssimos membros.


Como tem sido a articulação entre os diversos membros do grupo?


- O comitê organizador do evento, depois da Covid, criou uma plataforma que estão chamando de “Facebook do Papa”, porque tem uma estrutura de chat, post, vídeo dentro de cada uma das vilas e o jovem também pode gerar debates, publicar eventos, divulgar ações etc. Neste local, também podemos ver todos os participantes, independente da vila, do mundo inteiro. Então, é assim que a gente tem se articulado. Existe também, um GT (Grupo de Trabalho) de Comunicação que criou uma página no Facebook, um grupo no Whatsapp, uma página no Instagram e, mais recentementes, um site: http://economiadefranciscoeclara.com.br/sobre/ .


O nome do evento é Economia de Francisco, mas o site brasileiro fala em “Francisco e Clara”, você poderia explicar essa diferença?


- Pois é. Aqui, a gente chama de Articulação Brasileira da Economia de Francisco e Clara, porque Clara foi companheira de Francisco de Assis. O evento é inspirado nele, em Francisco de Assis, e por essa razão que seria sediado em Assis, a cidade dele. Clara era uma discípula de Francisco de Assis, então, no Brasil, decidimos chamar de “Economia de Francisco e Clara”, para trazer a questão do gênero.


O Brasil é o país com maior número de representantes selecionados para o evento. Como enxerga isso e qual a importância desse movimento para o Brasil?


- Sobre sermos a maior delegação internacional (a maior é a italiana) , é importante lembrar que o Brasil é o país mais católico do mundo. Então, como é um movimento capitaneado pelo Papa, tem muita influência em todas as igrejas, movimentos, associações franciscanas, principalmente. Porém, eu também acho que o Brasil é um dos mais beneficiados quando falamos em criar uma economia mais social, mais ambiental, mais voltada para o desenvolvimento sustentável, tirando as ganâncias do ser humano do centro e trazendo ele como parte de um todo. O Brasil tem enormes desafios sociais e ambientais que podem ser muito bem atendidos por essa economia do bem comum, proposta pelo Papa. E por que o Papa escolhe os jovens? Porque os jovens são o futuro. E isso tem muito a ver com o conceito de desenvolvimento sustentável: não deixar ninguém para trás e garantir que as necessidades das gerações futuras sejam atendidas, sem prejudicar as da atual geração.


Para você, quais são as principais urgências e o que podemos mudar com esse movimento global?


- Você perguntou o que a gente pode mudar? Acho que é isso: nós somos a última geração que pode transformar o que a gente está vivendo hoje. Então, acho que esse é um dos caminhos... É um dos caminhos para a solução que a gente ainda precisa construir. Juntos, sabe? A gente pode mudar o pensamento das gerações... Da geração atual, vendo o que os jovens estão fazendo.


Não vai ser uma Greta (Thunberg) só, vamos ser várias “Gretas”. Vários e várias Gretas juntas, de todos os cantos do país, de várias realidades diferentes. E somos jovens, então temos esse poder de imaginar um futuro que a gente quer visitar e se sentir contemplado!

Para finalizar, quais são suas expectativas para esse evento?


- Eu estou chamando intimamente de ‘Hackathon do Papa’ (risos) porque serão três dias e a ideia é que a gente construa uma nova economia: a economia da comunhão, do bem comum, uma economia mais justa, menos desigual e mais inclusiva. Três dias com jovens realmente construindo o futuro. Sabe o que é reunir jovens de diversas partes do mundo por três dias com 1 bom objetivo? Imagina o que pode sair dali?! Tudo pode acontecer! E depois cada um vai semear em seu país, inspirar, para que a gente não seja só um evento em si. No futuro, os ramos e folhas dessas sementes que nós plantamos em Assis vão se encontrar! Achei a ideia do encontro demais! E por ser o convite do Papa acho que vai além do catolicismo. Ele é uma figura emblemática, carismática, diferente de todos os outros papas. Muitos acreditam que ele é o futuro.



Acesse a programação oficial do evento aqui:

https://francescoeconomy.org/event-programme/


Acompanhe o evento nos dias 19, 20 e 21 de novembro neste link (canal oficial do The Francesco Economy no Youtube): https://www.youtube.com/channel/UCVKz5pM4geof3NvZO7GOylw



Sobre a entrevistada:


Lara Martins é especialista em Gerenciamento de Projetos pelo IAG - Escola de Negócios PUC-Rio e graduada em Comunicação Social com habilidade em Publicidade e Empreendedorismo pela mesma instituição, com intercâmbio na Universidade Autônoma de Madrid (UAM), na Espanha. Foi Co-Gestora da Comunidade do Sistema B no Rio de Janeiro em 2020 e 1º voluntária do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS). Fellow da Comunidade Social Good Brasil e da Abraps. Integra o Rio de Impacto e é membro da equipe de ODS da organização de jovens Engajamundo e Embaixadora SocialLab Brasil. Em 2019, recebeu o prêmio de Valuable Young Leaders do Instituto Anga e da Revista HSM Management Brasil. Atualmente, Lara é Assessora de Adesão e Engajamento da Rede Brasil do Pacto Global da ONU.


33 visualizações
Gera Social

Formamos agentes de mudança social

  • LinkedIn - Black Circle
  • Preto Ícone Facebook
  • Preto Ícone YouTube
  • Preto Ícone Instagram

Quer ficar sabendo dos nossos próximos eventos e de outros assuntos sobre o ecossistema de impacto social do Rio de Janeiro?

 

Acompanhe nossas redes

Gera Social. 2020