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O Futuro é Feminino (e Negro!) - Entrevista com Claudia Alves

Atualizado: Jul 4


No perfil do Instagram da Fluxa Filmes, Claudia Alves é descrita como uma mulher de humor cativante, ironia impecável e a “problematizadora do rolê”, além de diversas outras qualidades escolhidas para falar dessa sensível documentarista. Claudia Alves é uma das jornalistas que protagonizou a série “O Futuro é Feminino”, exibida pelo canal GNT e sócia da produtora Fluxa Filmes, que se apresenta no perfil do LinkedIn com a frase “audiovisual de impacto social”.

Claudia Alves foi uma das nossas convidadas para conversar sobre trabalho alinhado com propósito, racismo, feminismo, com nossos alunos e inspirá-los nessa trajetória. Aproveitamos a ocasião para entrevistá-la e ouvir um pouco mais sobre seus trabalhos e sua visão para o futuro.



Você é uma das três roteiristas da série O Futuro é Feminino, exibida pela GNT, que colheu depoimentos de mulheres importantes em três países: Brasil, Paquistão e Islândia. Com cultura e religião diferentes, há semelhanças no papel da mulher na sociedade?


- Há sempre um papel semelhante na sociedade quando a gente fala da sociedade patriarcal. Isso significa que em muitos momentos você observa que, sobretudo no caso do Paquistão e do Brasil, as mulheres estão em situações de subserviência ou de menos acesso. Embora muitas das nossas entrevistadas no Paquistão, assim como no Brasil, tenham mestrado, uma escolaridade muito avançada, a gente percebia que há uma limitação no papel delas na sociedade: elas tem que casar, tem que estar no lugar de serem donas de casa. A Islândia tem uma outra realidade: há 11 anos eles lideram como país com mais igualdade de gênero, de acordo com o Índice Global de Desigualdade de Gênero, produzido pelo Fórum Econômico Mundial. O país pratica uma igualdade de gênero real. Há 2 anos, eles implementaram o Equal Pay Act - que promove salários iguais para homens e mulheres que estejam no mesmo cargo. Isso foi um marco, pois agora, as empresas têm que pagar multa, caso isso não seja feito.


O que fez vocês escolherem esse tema?


- A questão de gênero nos inquietava - a Fernanda Prestes e a Bárbara Bárcia, minhas parceiras nessa produção. Tivemos acessos a relatórios sobre a situação da mulher no mundo e resolvemos abordar esses temas nesses países (a Islândia por ocupar o primeiro lugar como melhor país do mundo para mulheres, de acordo com o ranking do Fórum Econômico Mundial, e o Paquistão, o penúltimo. Iêmen, que ocupa a última posição, foi descartado por questões de segurança da equipe). Tínhamos previsto para a segunda temporada Ruanda e Japão, porém, por conta do coronavírus, a gente não pôde viajar e talvez tenhamos que mudar as pautas e os países, não sabemos ainda. Na construção desse documentário, percebemos que somos uma produtora de narrativas femininas. Já vínhamos trabalhando com impacto social em audiovisual e, agora, isso ficou mais evidente. Nossa linha é falar sempre sobre raça e gênero, que são duas pautas importantes. A gente acredita que não se pode falar sobre gênero se não se falar sobre raça. Então, o feminismo interseccional está muito presente para a gente.



Minha meta é uma equipe 70% formada por mulheres e que, entre elas, 50% sejam mulheres negras.


De que forma você espera que o programa seja relevante para a sociedade brasileira?


- A pauta sobre gênero e raça é importante e relevante pro Brasil sobretudo quando a gente começa a construir novos códigos e ressignificar algumas metodologias e pensamentos já existentes, já pré-existentes. Por exemplo: quando a gente vê pessoas mais velhas assistindo o documentário, elas se identificam. Algumas mulheres vão percebendo que elas são feministas. Homens começam a entender "ah, então era isso que você estava falando!". Quando a gente coloca na tela vozes dessas mulheres que já atuam e já articulam processos de eficiência para diminuir a desigualdade e para potencializar espaços e acessibilidade de mulheres, a gente está construindo um novo conceito, um novo significado para a sociedade.



O que você acha que tem causado o aumento do debate sobre feminismo e igualdade de gênero? Como enxerga esse movimento?


- Sempre acho que são ondas. A gente está na quarta onda e agora o digital está muito evidente: fica muito fácil você pegar um celular e ver o que se está falando. Muitas vezes, quando a gente fala de feminismo, a palavra “feminismo” atinge apenas uma bolha. A gente precisa falar de outras pessoas, de outras camadas. Essas mulheres negras que estão em comunidades já fazem esse papel de liderança política, social, sanitária nesses espaços e não se lia como feminismo. Hoje, no Brasil, a gente está muito mais forte em relação a isso. Acredito que esse debate tenha aumentado porque a gente também vê movimentos que vão contra isso. Políticas públicas, pessoas, executivos, que se posicionam contra esse pensamento de liberdade de expressão, de igualdade de gênero que possibilitam termos um país com mais igualdade,, um país com diversidade, onde mulheres também possam assumir cargos, que elas possam escolher as suas vidas, suas trajetórias.



Como foi a recepção do público com a série?


- Foi positiva a recepção do público. A gente ficou muito surpresa com a quantidade de meninas novas que viram, a quantidade de pessoas mais velhas que assistiram, que dividiram com a gente seus momentos. "Eu vi o episódio tal e me percebi num relacionamento abusivo" ou "eu vi que eu já sou feminista e eu vi que eu criei 5 filhos", enfim, foi muito positivo. Ainda hoje a gente colhe muitos frutos. Não rolou a segunda temporada esse ano, vai rolar provavelmente no próximo ano e acho que vai ser ainda mais positivo.



Qual é o seu sonho para a Fluxa e para a sua carreira?


- Eu não acho que seja um sonho. Eu acho que é uma meta e que a gente está fazendo com que ela se torne realidade. A gente quer que a Fluxa seja, vai ser, um vetor. Uma produtora brasileira focada em narrativas femininas com impacto social e que seja essa referência de espaço, onde 70% do set de gravação, da equipe toda, pré e pós-produção, sejam mulheres e que desses 70%, 50% sejam mulheres negras. A gente quer e a gente pensa em como construir esse lugar de saúde financeira, se ela vai ser uma produtora, se vai fazer consultoria ou se ela vai ser absorvida por outros espaços. A gente quer criar pontes, quer criar esses novos contatos. Isso é muito importante para a minha carreira, como executiva criativa, como uma mulher negra que atua no audiovisual.

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