Buscar
  • Gera Social

Luta contra a LGBTQIA+ fobia e a favor da diversidade humana



Apesar dos recentes avanços na legislação brasileira sobre direitos da população LGBTQIA+, como o reconhecimento das uniões homoafetivas, a possibilidade de alteração de nome e de uso do nome social, de adoção, de doação de sangue por homens homo e bissexuais, de acesso à previdência social, a criminalização da homofobia e da discriminação por identidade de gênero, são muitos os desafios para a efetiva cidadania por parte desta população no nosso país.

As trajetórias das pessoas LGBTQIA+ têm sido pautadas pelo enfrentamento de diversas barreiras. Fatores como discriminação, intolerância, violação de direitos e exclusão vulnerabilizam e impactam negativamente a qualidade de vida desta população em suas várias dimensões, restringindo acessos à educação, trabalho, saúde, lazer, impactando negativamente relacionamentos, suporte social e segurança.

Em um ranking que mede segurança para a população LGBTQIA+ publicado pela revista Spartacus em 2019, por exemplo, o Brasil havia decrescido da 55º para a 68º posição entre 197 países, ao passo em que uma pesquisa divulgada no mesmo ano pela da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) em comemoração ao Dia Internacional de Combate à LGBTIfobia, 17 de maio, apontou que 99% desta população não se sentia segura no Brasil.


Além de liderar em números absolutos o ranking mundial de violência à comunidade LGBTQIA+ em geral, o Brasil é desde 2008 o país onde mais se matam travestis e transexuais no mundo

Isso pode ser explicado por fatores como o exacerbado nível de violência ao longo de nosso processo histórico (colonialismo, escravidão, ditadura), a vulnerabilidade desta população, o contexto de prostituição, a precariedade das políticas públicas e a inefetividade do Estado em prevenir e investigar esses crimes. Se um brasileiro tem a expectativa de vida média situada em 76,6 anos, a expectativa de vida da população trans é de 35 anos e a cada ano a idade das vítimas é menor, tendo chegado a 15 anos a idade a partir da qual se observa aumento de risco das travestis e pessoas trans femininas serem assassinadas.


Nosso atual contexto político tem levado ao acirramento dos discursos de ódio, à incitação e ao recrudescimento da violência contra a população LGBTQIA+ e outros grupos estigmatizados, como efeitos deletérios dos posicionamentos do atual presidente do Brasil, que, com violento discurso normatizador e focando a LGBTQIA+ fobia e o racismo como ferramentas de atuação, direciona e legitima comportamentos discriminatórios, redundando em omissões e retrocessos por parte do estado em relação às necessidades desta população.

As sensações de não pertencimento e de não adequação aos padrões cis-hetero-normativos vigentes, as experiências de rejeição, discriminação, estigma e violência decorrentes de um processo de socialização homogeneizante resultam em acentuado estresse, demandam o uso extenuante dos recursos emocionais e deixam cicatrizes por toda a vida, implicando em maiores riscos para a saúde mental da população LGBTQIA+.

Desproporcionalmente representadas entre grupos economicamente desfavorecidos e população de rua e, portanto, potencialmente mais impactadas pela pandemia de covid-19, fazem-se imprescindíveis e urgentes ações para a redução das barreiras e desigualdades estruturais enfrentadas pelas pessoas com orientações sexuais e identidades de gênero diversas, representadas pela sigla LGBTQIA+ (Lésbicas; Gays; Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros; Queers; Intersexuais; Assexuados; e + outras orientações sexuais, identidades e expressões de gênero).

Em face desse cenário, é fundamental que neste Mês do Orgulho LGBTQIA+ presentifiquemos o espírito de luta do movimento de Stonewall como resposta à violenta ocupação policial de um bar frequentado pela comunidade LGBT em Greenwich Village, Nova Iorque, em 28 de junho de 1969 e que levou à mobilização política desta comunidade, gerou ações como as paradas gays por todo o mundo e a própria escolha do presente mês para simbolizar as conquistas, lutas e o orgulho de se ser quem se é.


Desafiar os discursos de poder e o status quo sobre o que é aceitável na regulação dos corpos e práticas, desnaturalizar estereótipos e noções estigmatizantes hegemônicas, legitimar jeitos de ser, sexualidades, corpos e posições historicamente deslegitimadas, fomentar o orgulho por cada orientação sexual, identidade e expressão de gênero, fortalecer a noção de que os mesmos não são intencionalmente mutáveis, valorizar a diversidade humana, adotar a interseccionalidade, com base no entendimento de que as lutas contra o racismo, o machismo, a gordofobia, o capacitismo, o classicismo e todas expressões e motivações estigmatizadas devem ser indissociáveis, são pilares que sustentam a luta dos movimentos LGBTQIA+.

Na medida em que a luta contra a LGBTQIA+ fobia e a favor da diversidade humana em suas múltiplas expressões no nosso atual contexto político coaduna com movimentos de resistência ao fascismo, de defesa da democracia e de desenvolvimento da sociedade como um todo, vale, por fim, ressaltar a importância de que, para além das categorias diretamente afetadas, toda a sociedade progressista se envolva nesses desafios, não apenas em datas específicas, mas cotidianamente.


Sobre o autor:


Cesar Sandoval Moreira Junior


Psicólogo, roteirista, especialista em saúde pública, em sexualidade humana e mestre em Psicologia pela USP, com MBA em Gestão de Pessoas pela FGV.


cesamok@uol.com.br


123 visualizações0 comentário