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Justiça climática: quem paga mais caro a conta do aquecimento global?

Atualizado: Set 10

Por Yasmin S. de Lima


O debate sobre mudanças climáticas não é nenhuma novidade, mas nos últimos tempos uma nova discussão vem ganhando força quando se trata do assunto: Justiça climática. Você já ouviu falar nesse conceito?


Todos nós - independente de raça, sexo, classe, nacionalidade ou religião - vivemos no mesmo planeta, dividimos a mesma atmosfera e, consequentemente, somos afetados igualmente pelos efeitos do aquecimento global. Será? Não é isso o que muitos pesquisadores e organizações internacionais vêm alertando.

É fato que as mudanças climáticas afetam o planeta como um todo, mas isso não significa que os impactos se dão da mesma forma para diferentes países ou grupos sociais.

Há um mês, no dia 9 de agosto deste ano, foi divulgado o relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) e junto a ele alguns temas ganharam os holofotes. A situação do planeta é urgente, não dá mais para esperar nem um dia e nem há espaço para pensamentos negacionistas em relação à intervenção humana nas mudanças climáticas.


Além de revelar uma elevação de temperatura 1,06ºC em relação ao período de 1850 a 1890, o documento aponta que as mudanças climáticas que vem ocorrendo podem ser irreversíveis por séculos e até milênios. Ainda assim, cientistas acreditam que reduções profundas nas emissões de gases de efeito estufa poderiam estabilizar o aumento da temperatura e evitar catástrofes maiores.


Em meio aos cálculos de temperatura, os efeitos já perceptíveis e os que são inevitáveis em um futuro não tão distante, um ponto chama a atenção: em diversos lugares do globo, não há relação direta entre quem polui e quem sofre as consequências. Pelo contrário. Os Estados Unidos, por exemplo, são um dos países que mais emite poluentes no mundo, sofre bem menos impactos climáticos do que países da América Central ou do Sudeste Asiático.


Outro exemplo é a Índia, considerada um dos países mais vulneráveis ao relação às mudanças climáticas mas que quase não contribuiu para o cenário atual.

Mesmo dentro de um mesmo país, observa-se que as populações mais pobres - que consomem e utilizam menos produtos e serviços ligados à emissão de poluentes - habitam regiões mais expostas às enchentes e secas. É assim na China, onde inundações causam tragédias majoritariamente para a população das periferias. Na cidade do Rio de Janeiro, assistimos à situações similares quando chuvas fortes causam destruição nas favelas. Em países que sofrem com ondas de calor - até naqueles mais ricos -, os pobres têm mais dificuldade de adaptação pois aparelhos de refrigeração implicam em aumento dos custos. Cenários assim são repetidos em diversos locais pelo planeta.


O conceito de justiça climática tem o propósito de debater mudanças climáticas e seus impactos na sociedade como um todo, com o diferencial de que busca dividir de forma justa - como o próprio nome diz - essa conta que a natureza está cobrando de nós. Dessa forma, responsabiliza-se os principais agentes poluidores e cobra-se deles atitudes em prol dos grupos mais vulnerabilizados que, ironicamente, costumam ser os menos poluentes.


Ou seja, as populações que mais sofrem com eventos climáticos extremos não são as que mais poluem.

Além disso, é importante destacar ainda como essa situação também acaba agravando a injustiça racial já que em muitos desses países são as populações negras e pardas que ocupam posições mais vulneráveis.


Então, o que deve ser feito? O que os estudiosos da justiça climática propõem é que países mais poluentes precisariam reduzir significativamente a sua emissão de gases poluentes e, paralelamente, contribuir financeiramente com os países mais vulneráveis para que eles consigam aplicar medidas de redução de danos e adaptação aos novos cenários que virão.


Na conjuntura em que estamos, não se pode mais falar em questões climáticas sem trazer o tópico da justiça. Mesmo assim, Keston Parry, economista político e estudioso do tema, lembra que ainda que sejam feitas as reparações necessárias, é preciso repensar o sistema econômico o qual alimentamos, caso contrário, todas as medidas continuarão sendo paliativas.



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