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Como dez anos de trabalho voluntário transformaram minha vida

Por Elisa Ramone



Foi no fim de 2010 que uma amiga me chamou para participar da festa de Natal da ONG Sonhar Acordado. A proposta era passar o dia como responsável por uma das crianças atendidas pela ONG em uma festa bem tradicional, mas de proporções gigantescas, com mais de mil crianças, muitas brincadeiras, Papai Noel e presentes. Só precisaria participar de uma formação de voluntários e me comprometer a estar presente no dia da festa, nada mais. Eu tinha 21 anos e nenhuma familiaridade com crianças. Tinha terminado um namoro naquele ano e aceitava basicamente todo e qualquer convite feito pelas minhas amigas para passar o tempo e me distrair. Esse convite foi só mais um que aceitei, despretensiosamente. Eu não tinha nenhum interesse particular pelo voluntariado, nunca tinha ativamente buscado isso para a minha vida, apesar de minha mãe fazer trabalho voluntário desde que me lembro.


Fui para a tal festa, com frio na barriga, preocupada com a possibilidade de a criança não me obedecer ou não gostar da minha companhia. Ao longo do dia, eu acabei ficando responsável não só por uma, mas por três crianças, e uma delas chorou ao ir embora, porque não queria ter que se despedir de mim. Eu gostei tanto da experiência, que voltei no meio de 2011 para outra festa da ONG, chamada Dia do Sonho. De novo, a experiência superou minhas expectativas. O contato com as crianças, os sorrisos, os abraços, ver que em um dia eu tinha sido capaz de ensinar a criança a jogar o lixo no lixo, a respeitar a fila e a lavar as mãos ao sair do banheiro, além de muitas outras pequenas coisas que me marcaram profundamente.


A partir daí, eu decidi que essa sensação incrível – de se doar para tornar mais feliz um dia que seja na vida de outra pessoa – não podia acontecer só uma vez por ano. Com o tempo, eu percebi que o voluntariado é mesmo viciante. Quanto mais a gente se dedica ao outro, mais a gente quer fazer isso. Há dez anos, o trabalho voluntário se tornou o melhor vício que eu poderia ter.


Daquele Dia do Sonho em diante, eu me inscrevi em diversos projetos contínuos da ONG Sonhar Acordado, da qual sou voluntária até hoje, e eventualmente fui chamada para ser coordenadora de campanhas de arrecadação de alimentos, de campanhas pontuais de Páscoa e de Natal, fui coordenadora de formação, dando capacitação para voluntários novos e ativos, e fui coordenadora de voluntários, trabalhando principalmente com resolução de conflitos.


Para além do deslumbramento inicial – que não se esgota com o tempo –, o voluntariado se mostrou uma das experiências mais enriquecedoras da minha vida, em termos pessoais e profissionais. Nesses 10 anos, eu fiz uma quantidade de amigos que já não consigo contar, eu vi crianças crescerem e se tornarem jovens conscientes do seu papel como cidadãos e adquiri muitas competências socioemocionais que são úteis no ambiente profissional e no dia a dia. Foi graças ao voluntariado que eu me libertei da vergonha de falar em público, passei a enxergar a minha cidade para além das fronteiras que eu frequentava, aprendi a ter empatia e a saber ouvir e percebi a riqueza do trabalho em equipe e de agregar diferenças em prol de um objetivo comum.


Foi a partir dessas experiências que o propósito – essa palavra que felizmente virou moda – entrou na minha vida e eu percebi que não poderia mais abrir mão de tê-lo. Por esse motivo, em todos esses anos, eu sempre encontrei maneiras de conciliar meu trabalho formal e remunerado com o meu trabalho voluntário, entendendo que o voluntariado exige o mesmo nível de comprometimento, seriedade, alinhamento de expectativas e entregas.

A consciência do quanto o voluntariado fez por mim, ao me transformar em uma pessoa e uma profissional melhor, hoje me faz buscar ativamente capacitação e conhecimento para ser uma voluntária melhor, para ser alguém mais capaz de gerar impacto social.


Minha lista de atividades de voluntariado só cresce: atualmente ainda sou voluntária de dois projetos contínuos da ONG Sonhar Acordado, o Sonhando Juntos e o Preparando Para o Futuro, sou voluntária do curso pré-Enem Partiu Facul e sou responsável, junto com outras três amigas, pela d.Impacto, perfil no Instagram que tem o objetivo de conectar pessoas que querem contribuir com causas sociais a projetos e organizações. Muitas pessoas me perguntam como eu arranjo tempo para tudo isso. Se o tempo é o nosso bem mais precioso, é preciso saber empregá-lo no que é prioritário. Acredito que a ninguém falta tempo, o que falta é conhecer quais são as nossas prioridades e fazer escolhas de forma a dedicar nosso tempo a elas.


Quando eu aceitei o convite da minha amiga lá em 2010, eu não fazia ideia de que aquela escolha iria mudar a minha vida, para melhor e para sempre. Fato é que hoje minha vida ganha sentido a partir do momento que me vejo capaz de impactar positivamente outras vidas, e não há nada que mereça minha dedicação mais do que isso.

Se você deseja ser voluntário, entenda qual é a disponibilidade de tempo que você tem para se dedicar a essa atividade – mesmo que seja pontual ou esporadicamente, lembre-se de que há projetos que precisam disso também. Avalie quais são as causas com as quais você mais se identifica, busque projetos ou organizações que atuem sobre elas e ofereça sua mão de obra. Se você ainda não quer ser voluntário ou nunca pensou nisso, lembre-se de que eu também não queria e pense se não vale dar uma chance a essa experiência transformadora.




Sobre a autora:

Elisa Ramone é carioca, graduada em Comunicação Social com habilitação em Produção Editorial, pós-graduada em Comunicação Organizacional Integrada e com Formação em Impacto Social.

Dedica-se ao trabalho voluntário há 10 anos, na ONG Sonhar Acordado, onde é voluntária contínua até hoje. Tem experiência com captação e formação de voluntários, gestão de campanhas de arrecadação e gerenciamento de conflitos.


Elisa é parte da equipe Gera Social, atuando como líder de ações voluntárias e projetos sociais. 

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