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Ativismo Ambiental - o poder do coletivo na construção de um meio mais sustentável


Pexels- Anna Shvets

Para entender a importância do ativismo ambiental temos que nos dar conta da situação em que estamos agora. Atualmente o Brasil recicla apenas 4% de todos os resíduos gerados, todo o restante vai para aterros (na melhor das hipóteses), lixões, rios e oceanos (ABRELPE, 2020). Possuímos mais de 2700 lixões no país, e apenas 28% das cidades possuem coleta seletiva (ABETRE, 2020 e SNIS, 2019). Apesar dos problemas mais visíveis, como montanhas de lixo acumulado em área que deviam ser protegidas, e o lixo jogado no mar (visto através dos inúmeros vídeos de peixes presos em sacos plásticos, tartarugas com canudos no nariz, e focas enroladas em redes de pesca velhas), existe um mal que não é fácil de ser percebido.


De acordo com um estudo da universidade de Newcastle, estamos ingerindo por semana o equivalente a um cartão de crédito em micro plástico (Newcastle, 2019).

Estamos encontrando microplástico em praticamente tudo que consumimos, no sal, na água engarrafada, na carne de boi e até no ar (Allen, 2020)! E qual o problema disso? Por ser uma substância que não tem afinidade com a água, o plástico acaba atraindo outras substâncias semelhantes, que são levadas para dentro do nosso organismo. Essas substâncias são conhecidas como poluentes orgânicos persistentes (POPs), persistentes justamente porque eles ficam no meio ambiente durante um bom tempo. Essas substâncias não são nem um pouco legais, e entre diversos problemas, podem causar infertilidade e câncer, além do próprio plástico, que vira uma substância estranha dentro do nosso corpo (Zimmerman et al., 2020). E qual seria a solução?


Pexels - Lisa

É fácil pensar em imagens utópicas, como famílias convivendo em lugares muito arborizados junto com diversos animais, em harmonia com a natureza. Mas muitas das soluções que procuramos já existem. Embalagens biodegradáveis, equipamentos que podem ser desmontados, remontados e atualizados, sem precisar jogar tudo fora, bens de consumo que sejam duráveis ou que possam virar matéria-prima no fim da sua vida útil, cidades que recirculam materiais, energia, calor e água de acordo com as necessidades de cada construção, etc..


Nada disso é novo, mas a evolução dessas soluções ainda é tímida, porque para que sejam adotadas em grande escala, precisamos mudar os fundamentos básicos da nossa economia, que ainda vê no prejuízo ambiental uma forma de ganhar da concorrência e aumentar a lucratividade.

Por isso, mais do que nunca é importante o ativismo ambiental de cada um. Mas então, o que fazer?


Para alcançar esse mundo paradisíaco que todos ansiamos, não dá pra esperar que outros façam o trabalho, nós mesmos precisamos construir esse caminho, de forma coletiva, mas com a intenção e energia de cada indivíduo. Em primeiro lugar, é importante perceber que essa jornada não tem fim, não existe o "100% sustentável", estaremos sempre em evolução. E também não importa se o seu vizinho tem mais hábitos ecológicos que você, comece de onde VOCÊ está, faça o que está ao SEU alcance, e mais importante, faça isso de forma natural.


Devagar ou rápido, um passo de cada vez ou dando saltos quânticos, não importa, mas simplesmente faça!

Como primeiro passo, busque informações. Hoje a internet possui uma infinidade de informações e possibilidades, e para não se perder, escolha uma área que mais te incomoda e comece por ela. Pode ser a sua alimentação, pode ser nos produtos de higiene que você usa, nos ítens que você usa no seu escritório, ou qualquer outra área. Comece observando o que você joga fora, o tipo de material, a quantidade e se comprometa a melhorar isso.


Em segundo lugar, busque pessoas que pensam como você, pessoas que já estão a mais tempo nesse caminho ou que acabaram de começar, tanto faz, mas essas pessoas serão grandes aliados numa jornada que muitos de nós já perceberam que nem sempre é fácil. O mercado nos obriga a gerar resíduos em troca de conforto e praticidade, e virar essa chave é nadar contra a corrente, especialmente para quem vive em grandes centros urbanos.


Com um pouco mais de informação e com uma rede de apoio para poder trocar informações, veja a melhor forma de descartar e reaproveitar seus resíduos. Já faz parte de algum grupo de troca de potes de vidro e roupas? Tem alguma cooperativa ou ecoponto perto da sua casa para onde possa levar seus recicláveis? Já pensou em fazer uma composteira em casa?


Eu tenho uma composteira desde quando saí da casa dos meus pais, sempre morei em apartamentos e posso dizer com propriedade, seguindo algumas regras simples ela não fede, não da mosca, gera um adubo ótimo para as plantas, é uma boa terapia e trás uma sensação de realização maravilhosa. Nem todo material consegue ser reciclado ou reutilizado, alguns são mais complicados, porque não foram pensados desde o seu design para serem reciclados. Mas não desanime, mude o que você pode, e sempre que possível opte por materiais mais duráveis ou mais fáceis de serem reciclados e reutilizados.


Nosso consumo é a maior forma de ativismo que possuímos!

Agora que você já está praticando essa atitude no seu dia-a-dia, pode começar a espalhar isso ao seu redor, é muito mais fácil sensibilizar outras pessoas quando temos propriedade sobre aquilo que estamos falando. É um trabalho de formiguinha, mas lembra daquele ditado "água mole em pedra dura"? Pois é, da mesma forma que você está batalhando por isso, milhões de pessoas estão fazendo isso ao redor do mundo, nem sempre as mudanças acontecem na velocidade que queremos, mas não duvide, elas estão acontecendo. Depois que sensibilizar familiares e amigos se tornar um hábito, você pode extravasar isso para outras ações, mas sempre dentro das suas possibilidades, sem tornar isso um peso ou uma cobrança desnecessária. Participe de mutirões de limpeza, ações comunitárias, seja voluntário em ações de educação ambiental, cobre grandes marcas nas suas mídias sociais, existem diversas maneiras.


E quando você se deparar com um problema ou uma ameaça grande, se aproveite das ferramentas legais que a gente possui. Participe de audiências e consultas públicas, é obrigação dos órgãos ambientais, nos três níveis, divulgarem essas ações, por isso mesmo é importante fazer parte de grupos engajados e acompanhar o site dos órgãos ambientais. Apoie políticos engajados. E perturbe os políticos que teimam em trabalhar contra o meio ambiente, mande e-mails, poste nas suas mídias sociais, não de sossego para eles. Faça parte de protestos e coleta de assinaturas para mudar questões legais, e se ninguém começar isso, comece você mesmo, perceberá que logo em seguida vai aparecer muita gente te seguindo. No caso de crimes ambientais, como descarte em áreas de preservação, ou descarte incorreto de resíduos perigosos, denuncie para o órgão ambiental municipal, para o órgão ambiental estadual e para a polícia ambiental. Se ninguém der resposta, recolha todas as provas e faça uma denúncia no Ministério Público. Caso se sinta inseguro, faça uma denúncia anônima, nós temos esse direito.


E lembre-se sempre, não importa se está mudando um hábito ou muitos, se está andando devagar ou correndo, se está sozinho ou faz parte de um grande coletivo, o que importa é não ficar parado!


Sobre o autor:


Marcos C. C. Albuquerque, engenheiro ambiental e bioquímico. Trabalha com gestão de resíduos, perigosos e não perigosos, em empresas, no setor público e com cooperativas de reciclagem a 10 anos. Fundou em 2019 a Simbiose Ecosoluções, com a missão de se tornar um hub de tecnologias ambientais. Atualmente se dedica a estudar o desenvolvimento de cidades e negócios regenerativos.

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